Não tenho hoje como falar sobre casamento [tendo a opinião que tenho] e sair ileso. Tenho essa consciência. Em tempos onde a “família tradicional” está em alta e a militância-conservadora não hesita em agredir quem quer discutir sobre o assunto, escrevo ressabiado, com medo de nem terminar de redigir meu artigo e levar uma pedrada.

Mas acreditem, minha intensão aqui não é de polemizar, nem mesmo chamar a atenção, mas sim de contribuir de alguma forma ao esclarecimento de alguns conceitos socialmente constituídos há anos e que talvez podem (na verdade devem) ser repensados.


Falar de casamento, na perspectiva cristã-bíblica, é falar dos seguintes registros:

“Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne.”Gênesis 2:21–24

O apóstolo Paulo, no Novo Testamento, ainda lembrou sobre esse assunto referenciando a maneira que Jesus se relaciona com sua Igreja:

“Como dizem as Escrituras Sagradas: ‘É por isso que o homem deixa o seu pai e a sua mãe para se unir com a sua esposa, e os dois se tornam uma só pessoa.’ Há uma verdade imensa revelada nessa passagem das Escrituras, e eu entendo que ela está falando a respeito de Cristo e da Igreja. Mas também está falando a respeito de vocês: cada marido deve amar a sua esposa como ama a si mesmo, e cada esposa deve respeitar o seu marido.”Efésios 5.3133

Deixar pai e mãe

Antes de tudo gostaria de destacar que, ao contrário do que muitos subentendem, o texto diz “deixar pai e mãe” e não está dizendo “deixar a casa do pai e da mãe”. Estou dizendo isso porque é precipitado deduzir isso, pra não chamar de errado. O texto diz “deixar pai e mãe” na questão de sua independência como um todo. Entenda que não estou dizendo que você não precisa sair da casa dos seus pais quando casa, mas estou dizendo que o texto não está afirmando isso como requisição. Não estou afirmando nada, somente “desafirmando”, até aqui.

Ritual e Tradição

Outra questão que é preciso ser mencionada é de que casamento bíblico não tem absolutamente nada a ver com o que chamamos hoje de “casamento civil” (registro no cartório) e nem mesmo com o “casamento religioso” (festa de casamento). Isso é uma tradição do nosso contexto social. Lembrando que no livro de Gênesis, quando a [suposta] definição de casamento foi registrada, tecnicamente só existiam ali Adão e Eva, então não tinha cartório na cidade e nem festa cheia de convidados e tudo mais. Acredite: não teve bolo.

O que define, então?

A verdade é que, assim como em tudo na nossa vida com Deus, o lado de fora deve ser uma expressão de uma realidade do de dentro. Pode haver uma linda festa e registros em cartório com muitas testemunhas, que se o casamento não acontecer no coração, você nunca estará de fato casado. Talvez civilmente sim, mas não na sua alma. Estará casado por lei, mas não por compromisso.

E isso faz toda a diferença. Explica porque [de acordo com o IBGE] nos últimos 40 anos a taxa de divórcio aumentou mais de 200%. Não por coincidência, esse ano completam 40 anos que o divorcio foi instituído no Brasil. Faço parte da geração “que seja bom enquanto dure” porque uma lei mudou. As pessoas casaram na lei, mas não no compromisso da alma.

Comprometimento de Amor + Consumação sexual

Eu acredito veementemente nessa verdade: casamento acontece quando dois adultos decidem sair da aza dos seus pais e viver em unidade, independentes, comprometidos um com o outro, jurando amor, fidelidade, respeito, pra sempre. E Deus preparou um presente pra isso, chamado: sexo.

Esse é o ponto de maior escândalo dentro das igrejas. Sexualidade é demonizada. Engraçado que foi Deus quem a criou. A bíblia em nenhum momento condena o sexo, porém sim, todavia, a promiscuidade, que pode ocorrer tanto entre solteiros quando entre casados. Quando Isaque se encontrou com Rebeca pela primeira vez, a beijou apaixonadamente e a levou para a cama¹. Não houve ali nenhum sacerdote para legitimar a união, nem cartório ou mesmo um simples documento que eles pudessem assinar. Alguém ousa dizer que o patriarca hebreu foi devasso? Eles se amaram desde a primeira vez que se viram e consumaram sexualmente seu amor.

Meu conselho

Entenda que não se trata de dar licença para o pecado. Mesmo porque [como já disse] sexo não é pecado. O que é pecado é casar sem compromisso, sem amor. Casamento é uma união linda, divina e Jesus ainda disse que “aquilo que Deus uniu, que nenhum homem separe². Então meu conselho é que se casem no civil (até porque o estado garante esse direito gratuitamente) e comemorem, brindem. Será um momento único na vida do casal e certamente mudará suas vidas. Aproveitem e dividam essa alegria com suas famílias e amigos. Comemorem! Não vejo motivos para que não sigam os meus conselhos se de fato o casamento já aconteceu no coração, porém, todavia, não me vejo no direito de fazer disso uma regra.

Com amor, Tihh Gonçalves ©.


Referências

  1. Leia Gênesis 24.36–37
  2. Leia Marcos 10.9