Um assunto bastante comum no meio cristão, bastante praticado, porém é pouco conversado a respeito. Em outras palavras, todo mundo sabe o que é a tal “Santa Ceia” e de onde ela vem e geralmente até participam dela, mas é só você fazer algumas poucas perguntas que você vê que as pessoas não sabem muito sobre ela.

Vamos hoje, conversar sobre isso.

Primeiro, vamos nos inteirar da história e ver de onde ela surgiu. Para leitura prévia, indico leitura do capítulo 26 do evangelho de Mateus.

Páscoa (Pessach)

Antes de tudo, precisamos ter claro que a Páscoa (em hebraico Pessach) que qual o texto se refere não é a “Páscoa Cristã” como hoje temos, afinal Jesus ainda nem havia sido crucificado. Pessach é a “Páscoa judaica”, também conhecida como “Festa da Libertação” que faz memória [e celebra] a libertação dos hebreus da escravidão no Egito (aproximado 1440/1280 a.C) narrada na bíblia no livro de Êxoto (que justamente significa “a saída”).

Festa dos Pães sem Fermento (Chag Matzot)

Chag Matzot é o nome dado ao sete dias de comemoração após a Pessach. De acordo com a Torá é proibido ingerir chametz (alimentos fermentados) durante este período. Geralmente o nome Pessach é associado a esta festa também.

De acordo com o versículo 17, a história é narrada no primeiro dia da festa (ou seja, na Pessach)

A Ceia

A ceia era — desmistificando um pouco — um jantar qualquer, porém especial por causa da Pessach. Eu gosto sempre de trazer pro nosso contexto ocidental, que costuma fazer a “Ceia de Natal”. Basicamente seria isso, um “jantar especial” com pessoas queridas à mesa.

A questão é que aquele seria o último jantar com Jesus. Seria a última vez que ele estaria jantando com seus discípulos como homem (Deus encarnado). Essa, então, foi uma ceia a qual Jesus chamou a atenção dos seus discípulos e se despediu deles. Como disse no versículo 29, estaria nos esperando para uma “nova ceia, com um vinho novo junto ao Pai”.

Pão e Vinho

Eles já estavam no meio da janta, Jesus então pegou um pedaço de pão e o partiu dizendo “Esse é meu corpo”. Em seguida, repartiu do seu cálice com seus discípulos dizendo “Esse é meu sangue, derramado por vocês”.

A verdade é que nem o pão e nem o vinho têm em si tem algum significado sagrado. Santo era Jesus e o que ele estava ali dizendo aos seus discípulos é o ápice de tudo o que existe de mais sagrado. Ele dizia:

Eu não jantarei com vocês amanhã, vou partir. Mas antes quero que saiba que tudo o que vai acontecer, será por vocês! Meu corpo será rasgado, meu sangue derramado, mas será por vocês! Farei isso pra garantir a nova aliança feita por Deus com vocês, pra garantir que o pecado de vocês seja perdoado!

Nunca se esqueçam!

Após repartir o pão e compartilhar o cálice, Jesus disse “façam isso em memória de mim”. Ele não instituía, como temos hoje, um rito, mas sim dizia:

Sempre que estiverem reunidos celebrando, lembrem-se desse momento! Lembrem-se que um dia eu vim, voltei ao meu pai, lhes enviei o consolador (Espírito Santo), e um dia estaremos novamente, face-a-face, celebrando juntos um vinho novo.

E conforme Paulo disse à igreja de Corinto, tragam a a memória aquele momento que antecedeu a crucificação de Jesus. Revivam aquilo e celebrem pela vida de Jesus.

Quem pode cear?

É importante enfatizarmos que para um Judeu, sentar-se a mesa com alguém, significava muito. Só se aceitava em torno da sua mesa quem você desejava abrir sua intimidade. Era como se os dois ali dividiriam suas vidas. Então todo judeu era muito seleto nesse aspecto. Por isso Jesus foi o escândalo que foi se sentando à mesa com pobres, marginalizados, ladrões, entre outras pessoas mal vistas socialmente. Por essas e outras que a subversão de Jesus nos diz que a “ceia do senhor” é inclusiva e todos são bem vindos.

Achar que alguém “em pecado” não pode tomar a ceia é agir com extrema ignorância a mensagem a qual Jesus nos deixou naquela noite pascal. Primeiro porque ele morreu justamente pelos pecadores. Segundo, porque todos nós somos pecadores. E terceiro e último, porque Jesus estava sentado á mesa no mínimo com um traidor que lhe entregaria à morte e com alguém que o negaria 3 vezes. Sem contar que a bíblia diz que na hora que o bicho pegou todos os discípulos fugiram. Então é claro e óbvio que pecadores (ou seja: todos nós) somos bem vindos à toda e qualquer ceia em memória de Jesus.

Paulo e Corinto

O apóstolo Paulo, na sua primeira carta à igreja de Corinto [capítulo 11], fala sobre a “santa ceia”. Esse texto é muito utilizado nas igrejas, principalmente por ser uma repreensão de Paulo a igreja. Então pastores, infelizmente, se utilizam das palavras de Paulo para dar um cagaço no povo que, se tomar em pecado, será amaldiçoado ou algo do tipo.

O que é um grande equívoco. Basta ler o capítulo 11 todo e você percebe que, ao contrário do que normalmente é pregado, Paulo não institui a “santa ceia” a igreja de Corinto, mas a usa como exemplo para criticá-la e corrigi-la. Paulo faz muitos elogios a igreja, mas chega num ponto que ele diz “mas no que eu vou dizer agora, não será um elogio, pois o culto de vocês tá fazendo mais mal do que bem” [versículo 17].

Mas do que Paulo não se agradou? Do povo estar tomando a “santa ceia”? Não. Na verdade o que incomodava Paulo era o contexto a qual a “santa ceia” acontecia. No cristianismo primitivo, a igreja criou uma refeição ritual conhecida como “Festa do Ágape” (ou “Festa do Amor”). Essas festas eram feitas com refeições completas, onde cada participantes levava de casa comida e bebida para todos comerem juntos. Elas eram realizadas aos domingos, que passou a ser conhecido depois como “Dia do Senhor”. Paulo então disse:

“…quando você comem, não é a ceia do Senhor (do amor, do Ágape) que vocês comem, pois na hora de comer cada um come da sua própria comida. E enquanto vocês tão se matando de tanto comer e beber, outros ficam com fome. Já que querem fazer isso, por que não fazem isso lá na casa de vocês? Ou fazem de propósito isso, pra envergonhar a igreja e os pobres? Eu não vou elogiá-los por isso.” [paráfrase de 1 Corintios 20.22]

E logo em seguida, Paulo os (re)lembra do que aconteceu naquela último jantar de Jesus, antes de ser capturado. Por fim, Paulo frisou que a ceia (no caso dos corintos: a festa Ágape) anunciava a morte de Jesus até que ele venha para tomarmos juntos o novo vinho e terminou com as palavras:

Por isso aquele que comer do pão do Senhor ou beber do seu cálice de modo que ofenda a honra do Senhor estará pecando contra o corpo e o sangue do Senhor. Portanto, que cada um examine a sua consciência e então coma do pão e beba do cálice. (1 Corintios 11.27–28)

O que Paulo chamou de pecado na ceia da igreja de Corinto, que ofendia e desonrava o sangue de Jesus? A falta de amor ao próximo.

O Rito e a Tradição

Infelizmente a igreja se perde diante do rito e da tradição. Aquilo que deveria ser um instrumento pra apontar algo lindo que Jesus nos entregou naquele seu último jantar com seus discípulos, hoje parece mais um ritual vazio e sem importância nenhuma que, as vezes, é até um desserviço a mensagem.

A ceia do senhor, na sua plenitude, está no compartilhar do seu amor incondicional. Jesus começou dividindo a mesa, seu pão, seu vinho, e por fim deu sua própria vida por todos nós. Não faz sentido algum a igreja querer tornar esse compartilhar de amor incondicional de Jesus algo privado e exclusivo. Se fosse por mérito, Jesus jamais teria ido praquela cruz. Foi exclusivamente por amor e justamente pra que esse amor possa ser perpetuado e manifestado através de nós.

Nenhum rito foi instituído por Jesus, mas sim um presente foi entregue. Não vejo problema de praticar o rito da santa ceia com pão e vinho, desde que se entenda que não é nada mais do que um rito, que aponto pra algo maior: o amor de Jesus. Ceiem com Pão fermentado, sem fermento, com vinho, suco, Fanta Uva, Doritos, Pizza, com o que for, desde que a essência do coração daqueles que ali estão seja “em memória de Jesus”, ou seja, pra que nunca esqueçamos que Jesus veio, voltou ao céu, nos mandou o Espírito Santo, e um dia voltará pra novamente juntos tomarmos um novo vinho. Enquanto isso, continuamos nessa vida ceando, relembrando, celebrando e principalmente compartilhando esse amor lindo, perfeito e incondicional de Jesus.


Com amor, Tihh Gonçalves ©