Tenho notado que os cristãos do meu tempo tem como língua nativa, a lei. E ainda a falamos fluentemente. Isso justifica nossa inclinação a justiça própria. Somos punitivos. Tanto com a gente mesmo quanto com os outros. Mas principalmente com os outros, é verdade. Apesar da condenação da lei ser pesada, inconscientemente (ou às vezes nem tanto) acreditamos que nós mesmos somos capazes de nos erguermos ao nível das exigências da lei. Talvez não reconhecemos isso, apenas vivemos assim. Isso explica a busca pela perfeição-espiritual (vulgo “santidade”) que como jamais alcançaremos, nos consolamos criticando e apontando as fraquezas dos outros que não nos achamos fracos. Isso porque a graça não é nossa língua nativa. A lei é.

Enquanto a lei tenta trazer a auto-justificação, a graça, por outro lado, diz que fomos justificados por Cristo e ponto. Inclusive, na Graça, somos salvos não pelo o que fazemos mas pelo o que Cristo fez por nós. Agora, tente fazer uma tradução crítica (daquelas, palavra por palavra) de um idioma bem diferente do seu, pro seu, e você verá que muitas das expressões não farão sentido. É como pegar aquela piada de programa americano que em que a plateia vai ao delírio de tanto rir e nós, brasileiros, quando traduzimos, não entendemos a graça. Do mesmo jeito agimos diante da graça. Falamos o idioma da lei e tentamos traduzir a linguagem da graça pro idioma da lei. Não vai ter graça nenhuma (literalmente).

Eu não falo inglês – ainda um sonho, confesso! – mas lembro de uma vez que na igreja que eu frequentava quando adolescente, houve um English Camp, que no bom portuga seria “Acampamento de Inglês”.  A ideia era de aprender a língua inglesa, ter esse contato com alguém dos states de verdade. Vinha uma equipe de missionários dos EUA e eles passavam uma semana inteira no acampamento só falando em inglês com os participantes. Eu não participei, mas no último dia fui na cerimônia do encerramento. Alguns participantes foram, então, convidados a irem até o microfone compartilhar como tinha sido sua experiência naquela semana. Um desses participantes era o Godo e ele falou uma coisa que me chamou muito a atenção e me marcou. Disse que durante a semana, se flagrou pensando em inglês. E ali, então, começou deixou de traduzir e passou de fato a se sentir falando como um americano (como se aquele fosse seu idioma nativo).

Trago essa experiência pra minha reflexão inicial, do idioma lei e graça. Jesus uma vez disse que não se pode colocar vinho novo em odre velho1 e creio que ele dizia que não podemos querer falar o idioma graça traduzindo ainda pra nossa mentalidade da lei. Precisamos começar a pensar no idioma graça. Precisamos nos envolver ao idioma e não somente traduzir a graça com um dicionário de turista que só fala o idioma da lei.

O apóstolo Paulo uma vez falou algo parecido2 , dizendo que somente aqueles que tiverem suas mentes renovadas em Cristo (idioma da graça), conhecerão quão boa, perfeita e agradável é a vontade de Deus.

A graça não se traduz. Se experimenta.

Abraços, Tihh Gonçalves ©


1 Mateus 9.14-17
2 Romanos 12.2