É verdade que o homem, de modo geral, tem problemas com aquilo que desconhece. Nós, crentes, também temos nossas particularidades nessa tendencia. Tudo o que não conhecemos, normalmente demonizamos. Meio que dizemos que “tudo que não é normal, é antinatural e é errado”.

Canhotismo

Já foi assim com o canhotismo, um dia. Hoje estamos bem esclarecidos que um canhoto, em sua constituição biológica, é uma pessoa como todas as outras e possui todos os genes e cromossomos iguais aos das pessoas destras, mas inexplicavelmente desenvolvem o lado oposto do cérebro.

Historicamente a igreja, na sua ignorância a respeito do assunto, condenava o canhotismo e em seus sermões, dizia que “a prática era do diabo”. A opressão era tanta em cima das pessoas canhotas que amarravam o braço esquerdo delas para força-las a desenvolver a prática destra. Conversando há alguns meses atrás com uma pessoa de mais idade sobre o assunto, ela disse que sua sua sobrinha apanhava toda vez que segurava o lápis com o braço direito, nos mostrando que isso é bem recente.

Identidade

A verdade é que essa questão é muito mais complexa do que podemos imaginar. Imagine você, canhoto, ouvindo que “ser canhoto é do diabo”. Você certamente não saberia lidar com isso muito bem, afinal você não é canhoto porque quis, mas acredita que “nasceu assim”.

Hoje em dia o canhotismo já é aceito como uma questão exclusivamente biológica e não por nenhum motivo espiritual. Isso nos dá entender que amadurecemos como igreja, certo? Errado! Não amadurecemos. Prova disso é a maneira agressiva a qual a igreja se posiciona contra a homossexualidade. A igreja continua imatura quanto ao diferente e apesar de hoje já achar o canhotismo bobagem, luta com unhas e dentes para “amarrar o braço esquerdo dos gays”. Afinal, o natural é escrever com o braço direito como nós e o antinatural só pode ser diabólico.

Mas assim como os canhotos há anos atrás, homossexuais não se sentem homossexuais porque querem, mas por que “nasceram assim”. Isso envolve identidade. Por isso a luta da GLBTS contra o uso pejorativo do termo “homossexualismo” e “preferência/opção sexual”. É grosseiro utilizarmos esses termos, com toda certeza! Pelo menos pra essa classe que “se vê como homoafetivo”. Muitos cristão não conseguem aceitar essa hipótese da orientação homossexual por conta de não terem o mínimo de empatia ou não se colocarem na pele deles, ao ter sua identidade questionada, ou melhor dizendo: violada!

Vamos virar o jogo. Imagine você ouvir que “ser heterossexual é algo diabólico e você precisa se relacionar, afetivamente e sexualmente, com alguém do mesmo sexo”. Consegue se imaginar fazendo isso? Pois bem, eles não conseguem se imaginar fazendo o inverso. Estamos (repito novamente) falando de identidade e não de uma escolha.

De Paulo a Corinto

Sempre que o debate sobre o assunto é levantado no âmbito cristão, surgem (normalmente de maneira agressiva, infelizmente) aqueles que condenam a homossexualidade e os homossexuais, utilizando o texto que o apóstolo Paulo escreveu ao Corintos, que diz o seguinte:

Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus.
1 Coríntios 6:9–10

Um grande defeito de quem quer usar a Palavra de Deus pra argumentar qualquer coisa, é de utilizar o texto fora de contexto. E como já diz o ditado: vira pretexto. É necessário então nos aprofundarmos no que Paulo estava tentando dizer ao povo de Corinto nessa carta.

Vamos antes de tudo mencionar o texto original (grego) de 1 Coríntios 6:9:

e ouk oidate oti adikoi theos basileian ou kleronomesousin; me planasthe: oute pornoi oute eidololatrai oute moixoi oute malakoi oute arsenokoitai

O apóstolo Paulo foi o único escritor do Novo Testamento a fazer menção a atos homossexuais. O silêncio dos demais livros já nos mostra que seus escritores estavam preocupados com outras questões. Inclusive Jesus, que viveu num tempo onde certamente conviveu com vários, e não fez nenhuma menção a respeito.

A maioria das traduções protestantes em língua portuguesa estão baseadas no trabalho do padre João Ferreira de Almeida. No Brasil, o trabalho de Almeida ainda é referência para muitos cristãos. Nos últimos anos é que outras traduções vêm ganhando o mercado editorial aqui no Brasil, o que representa uma mudança significativa no sentido de alguns textos. Há avanços e retrocessos em tais traduções, das quais se destacam a Bíblia Judaica e a Bíblia A Mensagem, ambas da Editora Vida.

A chave para se desconsiderar os textos referentes à homossexualidade é a dificuldade de saber com certeza o significado das palavras cujas traduções temos como “efeminados” e “sodomitas”. Tais palavras no original grego (mencionado anteriormente) são, respectivamente: malakoi e arsenokoitai. Há dezenas de traduções para ambas as palavras, o que prova a incerteza dos eruditos sobre o que elas realmente significam no texto original. Para traduzi-las já foram utilizadas várias palavras no português, como por exemplo: devassos, travestis, catamitos, prostitutos masculinos, sodomitas, afeminados, pederastas e pedófilos, dentre várias outras.

Malakos (plural malakoi) aparece em outros textos bíblicos e significa, literalmente: macio; suave ao toque; mole. No texto, Paulo adquiriu um significado metafórico, figurado. Os dicionários teológicos associam malakos a um homem afeminado, mas também reconhecem que o termo pode significar pessoas em geral dadas aos prazeres da carne. Tal tradução é bem mais coerente, pois todos os outros pecados citados ali se referem a pessoas de ambos os gêneros. Algumas traduções como A Bíblia de Jerusalém (em português), La Bible du Semeur (em francês) e a Contemporary English Version (em inglês) já apresentam essa ideia. Há estudos que relacionam malakoi com a prostituição masculina praticada na época de Paulo, principalmente em Corinto, cidade famosa por sua depravação sexual. Algumas traduções como a “Today’s New International Version” (2001), a “New International Reader’s Version” (1996) e a “New Century Version” (1984) já apresentam essa ideia. Embora não completamente precisas, essas traduções já representam um avanço ao dissociar os pecados dos malakos da homossexualidade moderna. A palavra sodomita também aparece na Bíblia como referência aos prostitutos do templo. Confira Deuteronômio 23:17–18, de preferência em traduções diferentes.

O contexto cultural e religioso de Corinto justifica a teoria de que Paulo referia-se à depravação ritualística tão comum naquela cidade. Na época de Paulo, era comum a prática da exploração sexual, principalmente na relação senhor/escravo. Em Timóteo, Paulo menciona, juntamente com arsenokoitai, os traficantes de jovens escravos, o que reforça tal interpretação.

Uma tradução mais acentuada de arsenokoitai seria “pederastas” pois referenciariam o contexto social do século I, expressando o caráter abusivo em tais relações sexuais. A visão judaica do comportamento sexual romano era essa: a violência, o abuso e a prostituição. Paulo, por ser judeu, cultivava esses conceitos. O mais importante é compreender que o apóstolo desconhecia o sentido moderno da homoafetividade. O que ele presenciava estava muito longe de representar o amor entre pessoas do mesmo sexo e seus relacionamentos estáveis. Alguns tradutores já perceberam que Paulo condena qualquer tipo de ato sexual não restrito às relações heterossexuais legais para a cultura judaica. Vamos ler novamente esses textos nas traduções já recomentadas nesse artigo:

“Quem usa e abusa das pessoas, do sexo, da terra e de tudo que nela existe não se qualifica como cidadão do Reino de Deus. Estou falando de libertinagem heterossexual, devassidão homossexual, idolatria, ganância e vícios destruidores”.

1 Coríntios 6:9Bíblia A Mensagem, 2011, Editora Vida.

 

“Temos consciência de que a Torah não tem por objetivo a pessoa justa, mas quem negligencia a Torah: descrentes, ímpios e pecadores, quem mata pai e mãe, assassinos, pessoas sexualmente imoraisquer heterossexuais quer homossexuais– vendedores de escravos, mentirosos e perjuros, e quem age de forma contrária à sã doutrina”.

1 Timóteo 1:9–10Bíblia Judaica, 2011, Editora Vida.

Talvez nunca saibamos o que tais palavras significam, porém, é evidente que não se referem às relações homoafetivas e monogâmicas da atualidade. O que Paulo condena é a prostituição, o sexo abusivo, cometido por deliberadamente por solteiros (fornicação) e fora do casamento (adultério).

Um outro ponto muito interessante é: se Paulo estava condenando a homoafetividade, por que se referenciou somente ao homens?

De Paulo a Roma

Outro texto bíblico muito utilizado para justificar a pseudo-condenação bíblia a homoafetividade, é da carta, também de Paulo, escrita aos romanos:

E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro. Romamos 1:17

Como já dito, é necessário avaliar os versículos dentro de seu contexto, para não darmos margem a uma interpretação equivocada daquilo que seu autor tentou expressar.

Qual a mensagem central do texto a qual o versículo que mencionamos acima foi retirado? Um exercício bom pra encontrarmos essa resposta perguntarmos: Por que Paulo escreveu essa carta?

Paulo escreve sem mais nenhuma paciência a respeito da prática idólatra que existia na Ásia, Grécia e Roma, que era a prostituição cúltica. No primeiro século alguns cultos a certas divindades envolviam orgias e prostituição cultual.

Veja que ele fala que mesmo eles tendo conhecimento da verdade, escolheram o mau caminho, se entregando as suas paixões e adorando ídolos onde eles caiam em orgias e prostituição. Outra peça desse quebra-cabeça que não se encaixar, é que Paulo disse Deus os entregou as suas paixões como se isso fosse um “castigo” ou algum tipo de punição. Se estivesse se referindo a relações homoafetivas (como um casal homossexual de hoje em dia que se amam, no caso) seria mesmo um castigo pra eles? Nessa caso, seria uma benção.

Mais uma vez acredito que o problema de Paulo não era com a homoafetividade. Ele toca na sua carta no pecado da idolatria. As paixões desenfreadas daquele povo na verdade eram abusos, como pra nós hoje seria uma “orgia no carnaval”, que nunca terminam bem, tendo frutos como: doenças, assassinatos, estupros, etc..

Ouso em dizer que mesmo se eles tivessem tido relações heterossexuais, daquela maneira desenfreada e inconsequente, ainda assim Paulo estaria enfurecido na sua epístola.


No amor, Tihh Gonçalves ©