Eu confesso que por muito tempo eu evitei falar sobre esse assunto. Muita coisa pra mim nunca fez sentido, mas mesmo assim sempre relutei de orar e estudar a respeito justamente porque sabia que um dia eu teria que falar sobre isso e não seria fácil.

Mas chegou um dia em que eu percebi Deus me conduzindo a crescer no assunto, então orei muito, li muito, ouvi muitas opiniões, concordei com uns e também descordei de muitos outros. Eu diria que a maior parte do que nós crescemos ouvindo a respeito do inferno, é resultado de uma interpretação equivocada, com muitas influências pagãs, muita mitologia (principalmente a grega), e até mesmo lendas urbanas.

Ainda, pra piorar um pouco esse tema confuso, no mercado da literatura cristã tem crescido muito o número de livros de pessoas que dizem terem tido experiências de incursões ao inferno. E na falta de base bíblica para o tema, as pessoas engolem qualquer coisa que o outro disse ter experimentado e tido revelação de Deus. Como diz que “se ele está dizendo que foi Deus que mostrou aquilo, quem sou eu pra questionar? Eu só acredito”. Então você vai ver descrições do inferno que serão ridículas. Como aqueles que dizem ter sido arrebatados ao inferno e viu lá um caldeirão de lava ardente, o diabo estava como um rei, com um garfo na mão, mergulhando as pessoas que lá estavam, dando gargalhadas de prazer. Nós sabemos que isso não é bíblico e é desilusório. Aliás, não me sinto autorizado nesse artigo de ir além daquilo que está escrito na bíblia. Não quero aqui trazer argumentação especulatória ou achismo de minha parte, quero utilizar somente aquilo que está na palavra de Deus.

Incoerente Eternidade

Há quem diz ser um sentimentalismo excessivo de minha parte, mas honestamente é inadmissível aqueles que se identificam com a causa de Jesus enquanto homem, sentirem-se confortáveis diante da realidade do inferno pregado normalmente nas igrejas.

Se acreditamos na bíblia quando diz que o “amor nunca perece” – ou seja, nunca termina –  então estamos “condenados” a amar sempre aqueles que nos acompanham na caminhada da nossa existência. Mesmo adentrando o “santo dos santos”; o “lugar sagrado”; os “portais celestiais”; nosso amor por cada um que “ainda não chegou” além de permanecer, aumenta, uma vez que estaremos livres de nossa natureza pecaminosa. Quem ama se importa com o bem de quem é amado. Como poderíamos nos sentir em plena paz, em plena felicidade, desfrutando da glória destinada aos filhos de Deus, sabendo que em algum lugar no universo estão pessoas que nós amamos estão sendo torturadas e que seu sofrimento duraria por toda eternidade? Imagine seus pais, sua esposa, seus filhos…

Será mesmo que Deus nos conduzirá há algum tipo de amnésia? Será que teremos de desistir de amar essas pessoas? Será que um pai salvo, será submetido a esquecer dos seus filhos condenados à perdição?

O livro do Apocalipse [por duas vezes] diz que “Deus enxugará dos nossos olhos toda lágrima” (Apocalipse 7.17; 21.4). As razões pelas quais não haverá mais choro é que também “não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor”. Se ainda em algum lugar da existência houver dor, então, haverá ainda motivo para lágrimas. Não ainda por parte dos que forem condenados, mas também por aqueles que com eles se importarem.

Considerando o pensamentos de alguns, se formos submetidos a uma espécie de amnésia, com nossa consciência “mexida”, logo, não seremos quem realmente somos. Como poderemos ser gratos por nossa salvação, se nem mesmo lembrarmos do que fomos (e que fomos) salvos? Como bendizer a Deus com minha alma se eu simplesmente não me lembro à que fui beneficiado? Para lembrar de tudo o que Deus fez em minha vida, terei de lembrar de todos aqueles que Ele usou para falar comigo e me edificar, incluindo aqueles que também supostamente não foram salvos. Não podemos considerar um lapso em nossa consciência.

Ainda que nossos vínculos familiares se dissolvam na eternidade, o amor que nos nutriu não poderá se apagar. Na eternidade seremos todos irmãos. Quem hoje são pais e filhos, lá serão irmãos. Marido e esposa estarão na eternidade também unidos, porém como irmãos.

Equívocos de Transliteração

Vamos analisar alguns textos minuciosamente e sabemos que existe uma grande dificuldade de traduzir os pergaminhos mais antigos — hebraico, no velho testamento e grego, no novo testamento — para o português. Muitas palavras, por exemplo, existem nos “originais” e no português não existem, então essas situações exigem a interpretação contextual do tradutor. O nome disso é transliteração, onde transportamos o sentido de uma palavra de um idioma estrangeiro por outra em nosso idioma com sentido semelhante ou próximo do seu significado. Porém é comum encontrarmos equívocos, pelo simples fato de exigir a interpretação de quem está fazendo a tradução. Então se a pessoa que está traduzindo o texto entende os originais de maneira errada, traduzirá para o novo idioma errado também.

Por conta disso, temos nos manuscritos mais antigos, palavras — inclusive diferentes — tanto no hebraico quanto no grego que foram traduzidas para o português como “Inferno”. Mas essas palavras, traduzidas iguais para o português, na verdade têm sentido, ou seja, significado ao contexto que foi usada, diferentes. Em outras palavras, nem sempre que no português está escrito “Inferno” quer dizer “o mesmo inferno”.

Vamos fazer uma análise as palavras originais que foram transliteradas para “inferno”:

  • Sheol, שאול (She’ol) — Aparece 62 vezes no Antigo Testamento.
  • Hades, Άδης, (Hádēs) — Aparece 10 vezes no Novo Testamento.

Sheol em hebraico significa “sepultura” ou “lugar dos mortos”. Era o lugar pra onde ia os mortos e é pra lá, inclusive, que todos nós iremos um dia. Afinal, a única certeza que temos na vida é a morte. Sheol então era visto com maior naturalidade. Eclesiastes 1:4 afirma que é necessário que uma geração vá para que outra geração venha e assim, a terra permaneça para sempre. Sheol jamais sugeriu a ideia de um lugar de suplício ou de punição para os mortos. Esta ideia só surge a partir do Novo Testamento.

Hades, é bastante usada para traduzir a palavra hebraica Sheol. Porém as 2 palavras têm conceitos diferentes. Para os gregos, o Hades, não era apenas a sepultura, mas como um submundo, era região onde os mortos eram confinados. A sepultura era apenas a porta de acesso ao Hades.

Um exemplo de substituição de Sheol no Velho Testamento para Hades no Novo, é no Salmos 16:10, onde Davi disse: “Pois tu não deixará minha alma no Sheol (hebraico)” e Pedro, usando essa passagem profética do Velho Testamento, em Atos 2:27 afirma: “Porque não deixará a minha alma no inferno Hades (grego)”.

A recorrência do grego Hades em substituição ao hebraico Sheol, se dá por conta da proximidade entre os conceitos, ainda que sejam termos incambiáveis. O conceito de Hades é muito mais elaborado e sofisticado, enquanto Sheol se limitava aos sete palmos da sepultura onde o corpo do falecido era depositado. O Hades era grande o suficiente para receber todos os homens que morriam, sendo dividido em duas categorias:

  • Elíseo, destinados aos homens bons e justos;
  • Tártaro, destinado aos homens maus e injustos;

Em Lucas 16:19–31, Jesus uso dessas “categorias gregas”, porém, adaptando-as à uma visão mais judaica. O Seio de Abraão, que é para onde foi o Lázaro, seria para os judeus equivalente ao “Elíseo Grego”. O rico da história foi para o que seria o “Tártaro Grego”. Tanto o “Seio de Abraão”, quanto o “lugar de tormento”, se situavam no Hades, o submundo dos mortos. O “Seio de Abraão” não não é o céu nem o paraíso, mas era um lugar reservado aos descendentes de Abraão, dentro do próprio Hades. Seria como um “lado bom do inferno”. Porém existe grandes diferenças do Hades Grego para o Hades Judeu. Por exemplo, para os gregos se separava o Elíseos e o Tártaro com um muro, para os judeus, o que separava o “Seio de Abraão” do resto era um abismo intransponível. Jesus em seu discurso, agiu com muita ousadia ao abrir mão dessas categorias.

Hades foi usado por Jesus também em outros contextos que fugiam do contexto original. Por exemplo, quando quis confrontar o povo de Cafarnaum, que foi a cidade onde Jesus mais realizou seus milagres:

E tu, Cafarnaum, que te ergues até ao céu, serás abatida até ao inferno; porque, se em Sodoma tivessem sido feitos os prodígios que em ti se operaram, teria ela permanecido até hoje.
Mateus 11:23

O que Jesus estava querendo dizer ao moradores daquela cidade? Estava ameaçando eles à uma eternidade queimando no inferno? Com certeza não era isso. Até porque, muitos discípulos de Jesus estavam em Cafarnaum e o número só crescia. Os termos “céu” e “inferno” tinham significado figurativo, representando “exaltação” e “humilhação”, respectivamente. Ou você acha que eles “subiram literalmente ao céu”? Claro que não. Na verdade ele “subiram ao céu”, quando Deus escolheu aquela cidade para ser o palco de alguns dos milagres mais notáveis de Jesus. Porém, ainda assim, não foi suficiente para que os moradores dela se arrependesse e aceitassem o Evangelho de Jesus, por isso estava destinada à ruína. Por conta da sua incredulidade e sua indiferença, se tornou tão pecadora quanto Sodoma, que se tivesse testemunhado as coisas que Cafarnaum testemunhou, teria se arrependido e não teria o fim que teve.

Paulo fez uso da mesma analogia que Jesus:

Que significa “ele subiu”, senão que também descera às profundezas da terra? Aquele que desceu é o mesmo que subiu acima de todos os céus, a fim de encher todas as coisas.
Efésios 4:9–10

Paulo usou a expressão “partes mais baixas da terra” como referência clara ao submundo, ao Hades. Encontramos algo semelhante em Filipenses:

Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz. Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, E toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.
Filipenses 2:6–11

Temos a impressão nesse texto de que a chamada para o esvaziamento (kenósis) experimentada por Jesus, foi como um retrocesso da sua natureza, ou seja, uma descida, degrau a degrau, primeiro homem, depois ainda se humilhou, até chegar “no fundo”. É verdade que Jesus “desceu até o inferno”, seja literalmente ou figurativamente, ao descer o mais baixo degrau experimentado pelo ser humano destituído da sua glória original. Jesus não morreu como um herói, mas como um marginal. Foi o mais profundo inferno existencial, quanto sentiu-se abandonado, onde disse “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” (Mateus 15:34). Não acredito que tivesse algum degrau a mais pra Jesus descer além desde que chegou. A sepultura seria apenas onde a sua carcaça humana seria depositada, mas a sua alma experimentou a fúria daquele inferno existencial, que antecedeu a rendição do Seu espírito ao Pai.

Se eu tivesse que definir o inferno experienciado de Jesus, resumiria em solidão. Durante toda sua humilhação enquanto conosco em forma humana, o Pai estava com Ele. Até o instante em que todos os pecados da humanidade em seus ombros, e abriu-se um abismo entre Eles. Jesus está com o Pai no Getsêmani, durante todo seu sofrimento, enquanto era espancado pelos romanos e durante as seis horas em que esteve pendurado no madeiro. Mas nos instante finais, pela primeira vez, se viu completamente só. Esse era o preço que teria que ser pago para que, ao ser exaltado, recebendo nome sobre todos os nomes, então, todos os joelhos se dobrassem, tanto na terra quanto debaixo dela. Jesus Cristo é o Senhor de todos os céus e de toda a terra. Ele é o senhor até do inferno! Não existe esfera existencial a qual nosso Senhor não seja soberano. Por isso todos que atribuíram a satanás o “senhor do inferno” estavam equivocados.

Isso no faz entender bem quando dissemos que era “pra eu e você estarmos naquela cruz, e ele pagou o preço por nós”. O preço da solidão, de todo afastamento do homem e de Deus, todo o abismo, foi ali imputado ao nosso Cristo, e juntos a Ele estamos reconciliados a Deus.

Não há margens para acreditarmos que o inferno seja um lugar. Lendas urbanas se propagam, dizendo que “cientistas da Nasa, teriam ouvido gemidos de almas presas no centro da terra”. Mesmo que Jesus e os apóstolos tenham se utilizado de categorias que pareçam afirmar isso, a intenção foi exclusivamente de facilitar a compreensão de seus ouvintes. Em qualquer ensinamento é necessário utilizarmos recursos linguísticos que o interlocutor já conheça, pois o objetivo de qualquer comunicação é que seja compreendida.

Há uma corrente (ligada à Teologia da Prosperidade) que defende que Jesus teria descido ao inferno e foi torturado por satanás, para assim ter pago por completo o preço da nossa redenção. Se isso fosse verdade, Ele não teria dito antes mesmo de morrer “Está consumado” (João 19:30). A obra da redenção foi terminada, concluída, consumada na cruz e não após ela. A ainda que se tivesse descido literalmente à um suposto inferno, seria exclusivamente para anunciar “Está consumado! Paguei o preço por todos vocês! Sejam livre!”.

Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito; No qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão;
1 Pedro 3:18–19

As Portas do Inferno:

Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela
Mateus 16:18

Possuir as portas significa possuir os limites; as fronteiras; o domínio. Era se Jesus atribuí-se ao Hades o status de “cidade do reino”. Quando um exército marchava contra uma cidade para conquistá-la, o povo dessa cidade reforçava os portões para impedir. A igreja, representante do Reino de Deus, seria como o exército invasor que marcharia contra o império da morte para conquistá-lo.

Paulo entendeu bem o conceito que Jesus falava, e expressou:

Porque, se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo.
Romanos 5:17

Para os gregos, o Hades era o território que a morte exercia seu domínio. Tanto é, que Jesus e Paulo se apropriaram disso para designar o domínio exercido pela morte desde a queda do primeiro homem, que foi Adão. A igreja como identidade do Corpo de Cristo, é como uma célula cuja a missão é se rebelar contra o império da morte. Não existe nenhuma comunidade no mundo mais subversiva do que a Igreja. Na mesma proporção que ela avança, o império da morte retrocede, igualmente se ela retrocede, o mal avança. Cada espaço que a Igreja dá pra trás, é espaço que ela oferece ao mal. Não é a Igreja que deve estar numa postura defensiva contra os ataques do Hades, mas sim as portas do Hades que enfrentam o assédio da Igreja. Nós, a Igreja, invadimos o império da morte e nem, sequer, foi necessário que as portas fossem arrombadas, pois nosso general, Cristo Jesus, tem as chaves do infernos e da morte (Apocalipse 1:18). E vale ressaltar que “Ele não as tomou da mão do diabo”, como geralmente se crê, mas sim as tem simplesmente porque é soberano. Ele é Senhor da vida e da morte, do céu, da terra e de todos os infernos.

Onde reina o diabo?

Há, ainda, aqueles que creem que o diabo reina nesse mundo, porém as escrituras não deixam dúvidas a respeito do assunto:

“Agora é o juízo deste mundo; AGORA será expulso o príncipe deste mundo.”
João 12:31

Depois ainda diz:

O príncipe deste mundo já está julgado
João 16:11

Foi diante dessa consciência, que Paulo, iluminado, pôde declarar:

E tendo despojado os poderes e as autoridades, fez deles um espetáculo público, triunfando sobre eles na cruz.
Colossenses 2:15

Jesus na cruz derrotou completamente o império do diabo. Ele perdeu num só golpe a posição de príncipe desse mundo, o império da morte e ainda o seu posto de acusador na corte celestial (Apocalipse 12:10). Então restou o que a ele? Somente a propaganda que muitos ainda fazem à ele, por conta de ignorância.

Quem outrora era chamado de “príncipe desse mundo”, agora é o “príncipe das potestades do ar” (Efésios 2:2), que indica que “perdeu seu chão”, foi desterrado (ou pra não restar dúvidas: príncipe mais de nada). Expulso tanto do céu, quanto da terra. Com os escombros do que restou do “império da morte”, ele construiu o “império das trevas” (Atos 26:18, Colossenses 1:13). Quando as Escrituras falam em trevas, referem-se à ignorância. Apesar de ter sido destituído, o diabo ainda usufrui da ignorância que ainda predomina entre os homens para mantê-los cativos (Efésios 4:18). Por isso que, somente o conhecimento da verdade fará o homem verdadeiramente livre (João 8:32). Por isso Jesus fez o chamado do “Ide por todo o mundo e anunciei as Boas Novas”, pois os homens precisam ouvir as boas novas do reino para que se libertem das amarras de satanás. E as boas novas do reino constituem-se no fato de que:

“O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre”.
Apocalipse 11:15b

Não há, por tanto, nem um único milímetro quadrado desse mundo a qual o diabo tenha direito de exercer domínio.

As portas do Hades foram escancaradas e compete somente a nós, Igreja, anunciar isso a toda criatura.

No amor, Tihh Gonçalves ©