Era uma manhã típica do litoral catarinense. Rubens acordou cedo, incomodado e foi até a praia pra arejar um pouco suas ideias.

Chegando lá, muita gente já aproveitando o dia. Em Balneário Camboriú, norte de Santa Catarina, a vida é agitada logo cedo. Ele, então, avista um pequeno banco próximo a areia da praia e vai até ele para se sentar.

Ficou lá uns minutos só apreciando as ondas do mar. Aquela manha estava triste, seu coração apertado, fechou seus olhos e começou, em pensamento, a falar consigo mesmo.

Logo, lágrimas começaram a escorrer de seus olhos. Ele tranca sua respiração, tentando manter o controle de suas emoções. Rubens é daqueles homens durões, que acha que chorar é uma fraqueza. Ele queria disfarçar seu choro, pois era justamente assim que ele se sentia: fraco.

Enquanto apertava os olhos e puxava um ar, percebeu que alguém acabava de se sentar no banco ao seu lado direito. Fingiu não perceber, mas a pessoa logo lhe disse — Olá. Está um lindo dia hoje, não é mesmo? — Rubens não estava a fim de conversa naquele dia e ainda estava muito instável com suas emoções, tinha muito medo de lhe responder com a voz tremula-de-choro, então somente balançou que sim com a cabeça, mas puxando o lábio um pouco pro lado, como se estivesse ironizando. Mas para seu desespero, o intrometido do banco lhe profere uma nova pergunta: Qual seu nome, amigo? — Rubens novamente aperta os olhos, dessa vez irritado, gira o pescoço como se estivesse alongando-o, e não responde nada ao rapaz. Fez questão de demonstrar que não estava numa manhã muito boa e não queria conversa. Mas parece que seu colega-de-banco estava vivendo justamente o oposto, como se estivesse na manhã mais incrível da sua vida e, com um sorriso radiante, coloca a mão sobre o ombro direito de Rubens e lhe repete a pergunta: Hei, amigão! Qual seu nome? — Rubens ficou nervoso com aquilo. Por um instante, imóvel. Não sabia como reagir diante daquela situação e tinha medo de como poderia reagir mal por conta da sua péssima manhã, então lentamente olhou para a direção do rapaz, como que em câmera-lenta, respirou fundo, tirou sua mão de seu ombro, e lhe respondeu:

– Não sou seu amigo.

Pronto. Pensou que seu problema estava resolvido. Não seria mais importunado por nenhum bom-humor. Lamentava ter sido grosso, mas havia sido necessário para que pudesse curtir sua bad frente ao mar. Olhou novamente pra frente, ignorando o simpático homem ao seu lado. Depois dessa, certamente ele iria embora. Voltou a curtir as ondas e não demorou muito para seus olhos encherem de lágrimas novamente. Aquela manha estava sendo muito sofrida. Ele aperta os olhos novamente, os fecha e volta a conversar consigo mesmo em pensamento:

– Está sendo tão difícil pra mim. Me sinto tão só. Deus, se você realmente existe, por que não fala comigo? Por que me deixa aqui sozinho?

Nisso, com os olhos ainda fechados, Rubens só sente uma mão novamente no seu ombro direito, e escuta uma voz:

– Amigão, eu insisto: está um lindo dia hoje, só você que não vê.

Rubens leva um susto. Naquele instante, já pensava que não tinha mais ninguém ali perto. Antes de abrir os olhos, pensou “Será que eu falei em voz-alta?” e, rapidamente, em seguida abre os olhos mas sem olhar para o lado. Com olhar fixo ao mar, ele — grosseiramente — diz ao homem.

– JÁ DISSE QUE NÃO SOU SEU AMIGO!

Voltou a fechar os olhos para segurar (na verdade disfarçar) a emoção. Realmente era daquelas manhãs que a gente diz que é o pior dia da nossa vida. Mas o pessimismo de Rubens era tanto que nem se arriscava falar esse tipo de coisa, com medo da vida no dia seguinte mostrar pra ele que as coisas sempre podem piorar um pouco.

De repente, ele se dá conta do silêncio que tomou conta de onde estava. Abriu então os olhos e, para sua surpresa, estava sozinho ali sentado naquele banco. Olhou em volta para tentar achar o tal-homem-bem-humorado, mas nada. Achou aquilo esquisito, peculiar.

Rapidamente se levantou e ficou olhando para todos os lados, tentando avistar para onde tinha ido aquele homem. Viu, então, no outro lado da rua, uma senhora debruçada no balcão de um quiosque que vende coco. Ela estava paralisada, com olhar fixado nas ondas do mar, quase dormindo-de-olhos-abertos. Mas daquele misterioso homem, nenhum sinal. Resolveu ir até aquela mulher e perguntar pra onde foi o homem que estava sentado há minutos atrás do seu lado.

– Olá senhora, bom dia.

– Bom dia?

Rubens sorriu. Ela, porém, não retribuiu o sorriso. Ele continuou:

– Eu estava sentado ali no banco com um homem e por um instante fechei os olhos e quando os abri, não vi para qual direção o homem foi. Como você estava olhando pra nossa direção, achei que pudesse me dizer onde pra que lado ele foi.

Aquela mulher ficou olhando fixamente pros olhos de Rubens. Ele se sentiu um pouco desconfortável com aquilo e sorriu, tentando quebrar-o-gelo. Mas pelo jeito, não tinha como fazer aquela mulher sorrir.

– Quer comprar um coco, amigo?

Que intrigante! Primeiro por ela ter ignorado o que Rubens acabava de dizer e segundo porque achou estranho aquela senhora lhe chamar de amigo também. Respondeu a ela:

– Não, obrigado. Só queria saber pra onde meu amigo foi.

– Há, ele é seu amigo?

Lembrou de quando o homem havia lhe perguntado sobre o dia o chamando de amigo, e o respondeu — grosseiramente — que eles não eram amigos.

– Não, não. Foi modo de dizer. Na verdade eu nem conheço aquele homem.

– Hmm…

Por uns instantes ficaram calados, um encarando o olhar do outro. Rubens, então, fechou os olhos e voltou a se virar pro mar. Lembrou de tudo o que estava o afligindo naquela manhã. Seus olhos se encheram de lágrimas novamente. Rubens odiava se sentir instável com suas emoções. Gostava era de se sentir durão, dominador de si mesmo. Mas aquele dia, não tinha forças nem para controlar seu próprio sorriso.

Repentinamente, ele ouve um rangir de uma porta enferrujada. De rabo-de-olho, percebe que era a mulher vindo para fora do quiosque em sua direção. Ele começa a suar de nervoso. Novamente, no instante que queria estar sozinho no mundo, alguém se aproxima dele. Ele finge não ter notado ela ali e olha fixamente pro mar. Sente, então, a enrugada mão daquela mulher no seu ombro esquerdo e uma voz dizendo:

– Está um lindo dia hoje, não é mesmo, amigo?

Apesar da voz com rouquidão típica de uma senhorinha, Rubens volta a se irritar como da primeira vez com o misterioso homem do banco. Ele, do mesmo modo, responde rudemente a ela:

– MINHA SENHORA, NÃO SOU SEU AMIGO.

Um silêncio toma conta. Parecia que até o mar tinha se calado. Ele então abre os olhos e vê que não têm ninguém a sua volta e nem mesmo quiosque havia ali. Estava sozinho, de pé, de frente ao mar. Começa a pensar que talvez era esse tal-deus tentando lhe mostrar alguma coisa. Mais perdido do que nunca, volta a olhar para o mar.

Até que é surpreendido ao perceber que estava dormindo e acabava de acordar sentado ao banco em frente ao mar. Avista a sua frente sua esposa, seus filhos, e saindo do mar seus pais. Não demorou muito e lembrou-se de todos seus problemas, suas dívidas, suas metas não alcançadas, as brigas com sua esposa e da dificuldade que tinha pra dar atenção pras seus filhos por conta do trabalho. Quando se dá conta, percebe que tem um homem sentado ao seu lado. Ele está chorando. Se segurando pra não chorar, na verdade. Achou aquilo estranho, pois tinha acabo de sonhar com aquela cena maluca, onde era o homem triste. De repente ele é acometido por um sentimento surpreendente, que renova sua alma. Como se tivesse tomado uma injeção cheia de vida. Olha para frente, em direção ao mar, abre um sorriso, coloca a mão nos ombros daquele homem ao seu lado e diz:

– Amigo, está um lindo dia hoje, heim?!

O homem olha no fundo dos olhos de Rubens. Não diz uma única palavra. Mas Rubens entendeu tudo o que aquele olhar queria dizer. Nisso, sua filhinha mais nova se aproxima deles cheia de areia e pergunta:

– Papai, quem é esse homem?

– Ele é amigo do papai.